Para entender o trabalho de Esdras e Neemias na restauração de Jerusalém, é preciso conhecer o contexto histórico do seu trabalho.
Com a divisão dos reinos de Israel em reino do Sul e reino do Norte, outros povos conquistaram Jerusalém, saqueando, destruindo-a e levando o povo cativo, como aconteceu, por exemplo, no período do cativeiro Babilônico. Quando o poder do império babilônico passou para os persas e o rei Ciro assumiu o poder, ele permitiu que o povo de Israel voltasse para Jerusalém. Assim, Zorobabel, em cerca de 539 a.C., levou quase 50.000 judeus de volta para Jerusalém iniciando seu processo de restauração (Esdras 1-6).
Zorobabel e os profetas Ageu e Zacarias motivaram o povo a edificar o templo em Jerusalém. Mais tarde, Esdras, em 458 a.C., conduziu um grupo bem menor que retornou a Jerusalém com dois objetivos principais: ajudar no acabamento do templo e ensinar o povo e ser fiel ao Senhor.
Menos de 15 anos depois da volta de Esdras, Neemias estava trabalhando como copeiro do rei persa Artaxerxes I, na fortaleza de Susã, quando recebeu a visita do seu irmão e mais alguns judeus. Eles falaram da situação precária da cidade de Jerusalém e da falta de segurança devido às péssimas condições das muralhas da cidade, destruídas 140 anos antes pelas forças babilônicas. Mencionou também que aqueles que retornaram do cativeiro estavam em grande miséria e desprezo, que o muro de Jerusalém estava fendido e que as portas estavam queimadas a fogo. Neemias, com isso, ficou angustiado com o relatório sobre Jerusalém e passou dias em jejum e oração antes de pedir ao rei a permissão para voltar e reedificar a cidade. Com a autorização de Artaxerxes I, em 445 a.C., Neemias voltou e organizou o trabalho dos judeus para a reconstrução dos muros. Com a determinação de Neemias, incentivando e supervisionando o trabalho, o que não tinham feito em mais de 90 anos, foi feito em aproximadamente em 52 dias.
Neemias exercia um cargo de confiança no palácio, era copeiro do rei e sendo uma nação subjugada era necessária a permissão do imperador para que a obra fosse feita. O pedido de Neemias para reconstruir os muros de Jerusalém era difícil de muitas formas. Em primeiro lugar, naquela época, os muros e os portões eram símbolos da força e da estabilidade de uma cidade. Então, não raramente, quando uma cidade era conquistada, tão logo seus portões eram retirados, seus muros derrubados, tornando a cidade sem defesa contra os ataques externos. Isso significa que a reconstrução dos muros de Jerusalém podia ser interpretada como uma ameaça ao domínio central da Pérsia. Em segundo lugar, parece que aborrecer um imperador persa era uma séria ameaça à vida. Isso explica o temor de Neemias quando Artaxerxes I lhe perguntou sobre o seu semblante triste (Neemias 2:2). Então pedir que o imperador persa permitisse a reconstrução dos muros de uma cidade conquistada, e ainda financiar a reconstrução, certamente era algo muito perigoso (Neemias 2:8). Em terceiro lugar, Neemias era responsável por servir o vinho do rei. Essa era uma grande responsabilidade, porque numa época em que havia muitas conspirações nas cortes, o copeiro era alguém que podia evitar que o rei fosse envenenado. O problema é que o pedido de Neemias implicava em sua ausência na corte de Artaxerxes I, algo que, de certa forma, parece ter preocupado o rei (Neemias 2:6).
Contudo, Israel contava com a ação de Deus a seu favor. Neemias então ora ao Senhor confessando os seus pecados e do povo, pede ao Senhor graça diante do imperador, e, assim, o Senhor lhe concede, sendo então permitido por Artaxerxes que Neemias retornasse para Jerusalém, e ainda lhe entregou cartas para que os demais governadores lhe dessem passagem por suas terras.
Neemias então inicia o processo de restauração de Jerusalém, que pode ser dividido em três etapas: a reconstrução dos muros (Neemias 1-7), restauração da aliança do povo com Deus (Neemias 8 - 10) e reforma da nação (Neemias 11 - 13). Estas três etapas implicaram na expulsão de Tobias e seus móveis da câmara do templo, além de Sambalate e Gesém, três estrangeiros que se opuseram à obra de restauração de Jerusalém, como também dos demais estrangeiros que haviam se casado ou aparentado com Judeus. Também o retorno à prática da lei, restabelecendo o concerto com o Senhor e as funções dos sacerdotes e levitas.
Durante este período de restauração, ficou marcado o fato de que cada um trabalhou na reconstrução diante da sua casa, com uma mão fazendo a obra e a outra mão em posse das armas para defesa do povo. Esta vigilância não cessou de dia nem de noite. Além disso, após Esdras ler a lei diante do povo, o louvor e a adoração a Deus marcaram o período final da restauração. Portanto a restauração de Jerusalém foi além da reconstrução do templo e dos muros, mas também a restauração da conduta do povo, voltando a obedecer à lei do Senhor.