Há dois registros nos Evangelhos de Mateus e Lucas que relatam as genealogias de Jesus (Mateus 1 e Lucas 3:23-38). Estes relatos são substancialmente diferentes. A genealogia dada por Lucas é traçada através de Maria (mãe carnal de Jesus – destacando Sua humanidade) e a de Mateus o fez através de José (pai legal de Jesus – destacando Sua descendência real ligada ao rei Davi).
Estas genealogias foram narradas com o objetivo de mostrar e destacar o nascimento de uma criança com linhagem real, em Mateus, e Lucas aborda a genealogia de Jesus retrocedendo continuamente até Adão, como o objetivo de mostrar Jesus como homem.
Mateus menciona, sinteticamente, um total de 46 antepassados que teriam vivido até uns dois mil anos antes de Jesus, começando por Abraão. Em seu relato, o apóstolo cita não somente heróis da fé, mas também menciona os nomes das mulheres estrangeiras que fizeram parte da genealogia tanto de Jesus quanto de Davi, que no caso foram Rute, Raabe e Tamar. Também não omite os nomes de homens perversos como Manassés e Abias, ou de pessoas que não alcançaram destaque nas Escrituras. Divide então a genealogia de Jesus em três grupos de catorze gerações: de Abraão até Davi, de Davi até o cativeiro babilônico, ocorrido em 586 a.C., e do exílio judaico até Jesus.
O propósito do Evangelho de Mateus é de demonstrar, incontestavelmente, aos judeus que Jesus é o Messias, o verdadeiro Rei, prometido por Deus. Assim, o único lugar na Bíblia onde aparece trinta e três vezes o termo “reino dos céus” é no livro de Mateus. Mateus prova que Jesus nasceu de linhagem real. Em seu nascimento ele recebe presentes dignos da realeza (Mateus 2:11). Em Mateus 3 é descrito o precursor do Rei, proclamando que o Reino está próximo. O Sermão do monte é realmente o manifesto desse Rei. Seus milagres são suas credenciais (Mateus 8 e 9). Suas parábolas são intituladas “parábolas do Reino”. Até fora do país Ele foi chamado “o Filho de Davi”. Entrou, por fim, em Jerusalém como Rei; predisse a Sua volta em glória para reinar. Na ocasião de Sua morte, fenderam-se as rochas, a terra tremeu e mortos saíram dos túmulos. A Sua ressurreição foi com poder majestoso, acentuado por terremoto e grande terror entre os guardas. Em suas últimas palavras proclamou Seu direito de Rei e deu a Sua ordem real: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide portanto...” (Mateus 28:18,19).
Lucas, superando Mateus, fornece um número maior de antepassados de Jesus. Esta genealogia é considerada por alguns acadêmicos como sendo a genealogia de Maria, sendo assim a genealogia materna de Jesus, o que explicaria parte das diferenças entre esta e a genealogia apresentada por Mateus.
Lucas era médico (Colossenses 4:14), e ninguém melhor do que um médico para descrever a respeito de Jesus sob o foco de sua humanidade, ou seja, Jesus como homem. Só Lucas descreve detalhes humanos, por exemplo: sobre o nascimento e adolescência de Jesus Cristo e de Seu precursor (João Batista); sobre fatos históricos relevantes em sua passagem aqui neste mundo; detalhes de sua dor nos momentos que antecederam seu sacrifício na cruz do calvário, como os sintomas da hematidrose (suar sangue).
O Evangelho de Lucas foi escrito para os gentios, para mostrar que Jesus é o exemplo a ser seguido, mesmo sendo Deus, se fez homem, chorou, sofreu e viveu na própria pela as limitações do homem. Assim, Ele conhece a nossa dor, Ele mesmo sofreu todas as nossas aflições para que hoje encontrássemos esperança (Hebreus 4:14-16).
Sendo assim, na genealogia descrita em Lucas 3:23-38, Jesus (como se cuidava) era filho de José, e José de Eli (que era sogro de José, segundo a tradição histórica). Naquele tempo, as mulheres não eram consideradas nas genealogias. E, assim, Lucas descreve a genealogia humana de Jesus, pois Ele era, de fato, filho carnal e biológico de Maria, associado-O com a nossa natureza e raça humana.
O EVANGELHO DE MARCOS: AUSÊNCIA DE GENEALOGIA?
O livro de Marcos foi escrito para os romanos para mostrar Jesus como exemplo de servo (trabalhador). Marcos emprega repetidamente as palavras “logo” e “imediatamente” na sua narrativa, sendo uma descrição de contínua ação e incansável execução e realização de cumprimentos de obediência ao projeto de Deus. Sem demorar, nem vacilar, o servo fiel cumpre a obra que lhe foi confiada, passando rapidamente de uma ação a outra entre o povo necessitado e sofredor. Sendo assim, não há registros de genealogia, pois servos não necessitam de genealogia, uma vez que Ele está ali para obedecer e cumprir a vontade do Seu Senhor. O público romano, a quem Marcos direcionou seu evangelho, não tinha interesse em saber de onde um servo tinha vindo, mas sim saber o que ele poderia fazer.
O EVANGELHO DE JOÃO: GENEALOGIA DIVINA
O Evangelho de João foi escrito como um livro universal para mostrar que Jesus é O Filho de Deus (Sua divindade). Dessa forma, no início do livro, descreve a genealogia de Jesus como sendo Filho do Criador, para enfatizar (dentre outras passagens do livro) de maneira ainda mais viva e íntima o amor, a majestade e o poder do Seu Pai.
Assim, em João 1:1-3 é afirmado que “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez”. E mais a frente em João 1:14 “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.